Como a música pode ajudar pessoas com autismo?

03/12/2015

Será que a música pode ajudar crianças, adolescentes e adultos com autismo em seu desenvolvimento?  A relação da musicalidade com a prática terapêutica junto às pessoas com autismo tem sido alvo de pesquisas no Brasil e no exterior, dentro do campo da Musicoterapia. Veja abaixo algumas considerações importantes sobre o que tem sido descoberto nesse campo de conhecimento:

Como o corpo das pessoas com autismo funciona quando há música?

Música para pessoas com autismoAs pessoas com autismo podem apresentar um processamento sensorial diferenciado. Sabemos que elas tendem também a processar melhor as informações espaciais e concretas e focar a atenção em partes separadas, podendo ter dificuldade em formar uma ideia geral do todo. Mas, como os processos cerebrais afetam a relação das pessoas com autismo com a música?

Um aspecto muito interessante e que está ligado ao funcionamento cerebral específico das pessoas com autismo é que estas pessoas mostram respostas neurofisiológicas reduzidas para estímulos a partir de palavras nas regiões frontais do cérebro. Ou seja, quando comparadas com as pessoas neurotípicas, as pessoas com autismo tendem a apresentar uma diminuição significativa da ativação para palavras em regiões centrais do córtex parietal, de acordo com o Professor Gustavo Schulz Gattino.

Além disso, entre as pessoas com autismo podem ocorrer reduções nos níveis de atividade do córtex auditivo secundário, sendo que esta é a área do cérebro onde deveriam ser processados os sons da fala. Estes fatores fazem com que possa existir entre as pessoas com autismo um maior interesse por sons relacionados à música do que por sons vindos da fala.

Segundo o Professor Gustavo Schulz Gattino, em relação à música, as pessoas com autismo tendem a apresentar uma capacidade intacta para percepção de melodias simples e um desempenho superior a indivíduos com desenvolvimento típico para processar elementos locais melódicos. Apesar disso, observa-se uma dificuldade para decifrar algumas melodias complexas e isto está ligado à dificuldade em formar “imagens musicais”, ou seja, compreender e ter uma visão global de séries de melodias que não apresentam o mesmo direcionamento.

As pessoas com autismo percebem sentimentos e emoções na música?

De acordo com pesquisas cujos resultados foram obtidos a partir de análises fisiológicas de alterações na pele dos indivíduos pesquisados enquanto eles ouviam música, as pessoas com autismo costumam ter uma percepção apropriada dos sentimentos e emoções evocados pelas músicas.

Nestes estudos, as pessoas com autismo em geral conseguiram identificar alegria, tranquilidade ou tristeza, por exemplo, ao ouvirem música, de maneira parecida com as pessoas neurotípicas.

O fato de a compreensão dos sentimentos e a expressão emocional estarem aparentemente preservadas entre as pessoas com autismo quando elas são expostas às musicas indica oportunidades e possibilidades amplas de trabalhos terapêuticos que envolvam o desenvolvimento da comunicação, do aprendizado e da interação social a partir da Musicoterapia.

Como a música pode ajudar as pessoas com autismo?

A Musicoterapia voltada às pessoas com autismo teria como objetivos o desenvolvimento de talentos e habilidades mediado pelas experiências musicais. A música poderia beneficiar o tratamento de crianças, adolescentes e adultos ao:

  • possibilitar a ação das pessoas com autismo dentro da estrutura temporal da música, através de participações livres, da exploração de instrumentos e de improvisações;
  • oferecer oportunidades de auto-expressão e de vivências criativas, como experiências de comunicação e interação entre pares sem a necessidade do discurso verbal;
  • oferecer alternativas de expressão e comunicação de modo socialmente adequado;
  • apresentar oportunidades para que as pessoas com autismo possam assumir responsabilidades com os demais indivíduos, por exemplo, quando os mesmos estão produzindo música juntos;
  • propiciar o aumento da comunicação verbal e não-verbal entre os pares;
  • possibilitar a aprendizagem de regras sociais para poder replicá-las em outros ambientes e contextos.

Entre as experiências musicais mais usadas em Musicoterapia, pode-se citar a improvisação musical, a composição musical, a re-criação de canções e a audição musical, segundo o Professor Gustavo Schulz Gattino.

Saiba mais sobre os benefícios da música para as pessoas com autismo e conheça a experiência de algumas crianças e adolescentes lendo também um artigo publicado no site do jornal Folha de São Paulo.

Agradecemos à equipe do LEdi (Laboratório de Educação Inclusiva) da UDESC e ao Professor Gustavo Schulz Gattino pela promoção de palestras sobre Musicoterapia e Autismo e por compartilhar os valiosos conhecimentos sobre o assunto. Citamos a seguir algumas indicações bibliográficas relacionadas ao trabalho do Professor Gustavo Schulz Gattino.

Aos interessados em saber mais sobre o assunto, recomendamos a página oficial do Professor Gustavo Schulz Gattino no Facebook e a leitura do livro “Musicoterapia e Autismo, teoria e prática”, de sua autoria.

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Bibliografia

Allen et al. The Effects of Autism and Alexithymia on Physiological and Verbal Responsiveness to Music. Autism.  18: 137, 2014.

Bouveta et al. Auditory local bias and reduced global interference in autism. Cognition. Volume 131, Issue 3, June 2014, Pages 367–372.

E.-M. Quintin, A. Bhatara, H. Poissant, E. Fombonne, D.J. Levitin Processing of musical structure by high-functioning adolescents with autism spectrum disorders Child Neuropsychology, 19 (3) (2013), pp. 250–275.

Gattino G. A influência da musicoterapia na comunicação de crianças com transtorno autista. Dissertação de mestrado. Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e do Adolescente: Universidade Federal do Rio Grande do Sul; 2009.

Gattino G. Musicoterapia aplicada à avaliação da comunicação não verbal de crianças com transtornos do espectro autista : revisão sistemática e estudo de validação.Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e do Adolescente: Universidade Federal do Rio Grande do Sul; 2012.

Ludlow, B.  et. Auditory processing and sensory behaviors in children with autism spectrum disorders as revealed by mismatch negativity. Brain and Cognition, Volume 86, 2014, 55 – 63.

Ludlow, B.  et. Auditory processing and sensory behaviors in children with autism spectrum disorders as revealed by mismatch negativity. Brain and Cognition, Volume 86, 2014, 55 – 63.

Samson F, Hyde KL, Bertone A, Soulieres I, Mendrek A, Ahad P, et al. Atypical processing of auditory temporal complexity in autistics. Neuropsychologia. 49. England: 2010 Elsevier Ltd; 2011. p. 546-55.

Stanutz, S. et al. Pitch discrimination and melodic memory in children with autism spectrum disorders. Autism.  18: 137, 2014.

T.Kujala , T.  Lepistö , R.  Näätän. The neural basis of aberrant speech. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, Volume 37, Issue 4, 2013, 697 – 704

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Todos os comentários ( 6 )
  • Avatar
    Carlos
    02/02/2017 em 9:18 pm

    Boa noite. Gostaria de enviar esse artigo a uma pessoa que tem um neto com esse problema.

    Resposta
    • Avatar
      Inspirados pelo Autismo
      @Carlos
      14/03/2017 em 3:00 am

      Olá Carlos,Agradecemos a apreciação de nosso artigo sobre como a música pode ser utilizada para auxiliar no desenvolvimento de crianças com autismo.Você poderá sim […] Leia maisOlá Carlos,Agradecemos a apreciação de nosso artigo sobre como a música pode ser utilizada para auxiliar no desenvolvimento de crianças com autismo.Você poderá sim enviar o artigo a outras pessoas, assim como recomendar que elas se inscrevam em nosso site para receber os nossos informativos contendo artigos, atividades, dicas, vídeos e notícias sobre o autismo: https://www.inspiradospeloautismo.com.br/receber-nosso-informativo/Atenciosamente,Equipe Inspirados pelo Autismo Leia Menos

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    • Avatar
      Maria do Carmo Quirino Limeira
      @Carlos
      17/08/2017 em 3:36 pm

      Boa tarde, sim é muito triste ser avó é não poder fazer nada por sua neta, ela têm 5 anos, vejo que, cada dia só […] Leia maisBoa tarde, sim é muito triste ser avó é não poder fazer nada por sua neta, ela têm 5 anos, vejo que, cada dia só piora seu quadro de imperativismo,os pais não aceita que ela tenha algum tipo de trastorno, então eu me sinto invalida diante do problema só porque sou avó. Leia Menos

      Resposta
    • Avatar
      Luss Pérola
      @Carlos
      13/09/2017 em 12:17 am

      Não é problema é apenas uma singularidade e é maravilhoso qdo se ama e conecta a esse universo

      Resposta
  • Avatar
    Danielle
    16/10/2017 em 2:13 pm

    Qual o nome do autor desse artigo? Quero utilizálo em uma monografia. Obrigado.

    Resposta
    • Inspirados pelo Autismo
      Inspirados pelo Autismo
      @Danielle
      12/12/2017 em 4:58 pm

      Oi Danielle, o autor deste artigo é Patricia Guatimosim.

      Resposta

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“Finalmente encontrei um curso sobre autismo que atendeu minhas expectativas. Foi ministrado numa linguagem acessível, de forma dinâmica e prática, no qual assimilei um aprendizado que já me habilitou a lidar com o autismo.”

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“Inovador, prático, inspirador, conteúdo bem completo, considerando a amplitude das características do autismo.”
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“Inspirador, me fez compreender o mundo do autismo (do meu filho) melhor, me deu força, esperança e me tirou do papel de expectadora, me abriu portas para um mundo diferente, me fez ter outros olhos e me deu o poder de fazer a diferença na vida do meu filho. Fiquei muito feliz de ter participado do curso e indico para todos os profissionais e familiares de pessoas com autismo.”
Danielle Speranza, mãe
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“Como uma grande oportunidade de aprender, conhecer e desenvolver nossa sensibilidade de forma com que possamos auxiliar nossas crianças ou adultos com autismo a encontrar prazer em interagir socialmente, em brincar, aprender através de atividades lúdicas, interativas e prazerosas para ambas as partes. Vale a pena! É incrível!”
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