Perguntas e respostas

  • Recebemos várias perguntas de pais e profissionais relativas à implantação da abordagem interacionista, responsiva, motivacional e lúdica para crianças e adultos com autismo que é apresentada em nossos cursos. Sean Fitzgerald e Mariana Tolezani respondem aqui às perguntas mais frequentes. Esperamos com esta página contribuir para a maior compreensão dos princípios, implantação e aperfeiçoamento da abordagem aplicada por cada família e profissional.

    Para uma resposta personalizada, oferecemos também consultas telefônicas ou pela internet.

    Estou com dificuldades com meu filho na escola. Ele está na terceira série e está com dificuldades para ler. Conhece as letras, junta as sílabas, mas quando vai ler uma frase, ele tem uma dificuldade enorme.

    Aprecie e comemore o fato de o seu filho já conhecer as letras e ser capaz de formar sílabas. Ao se sentir apreciado e comemorado pelas habilidades que ele já adquiriu, talvez ele se sinta mais motivado e confiante para realizar tentativas quanto às solicitações que são mais desafiadoras para ele.

    Você poderá também dividir a sua meta (que o seu filho leia uma frase completa) em partes. Por exemplo, ele já consegue ler cada palavra com facilidade? Em caso positivo, peça para ele ler apenas duas ou três palavras de uma frase, ao invés de pedir que ele leia a frase toda. Vocês podem pensar nos interesses e motivações de seu filho e criar frases que sejam relacionadas aos temas de que ele gosta. Além disso, vocês poderão formar frases e, de forma divertida, empolgada e até com um certo suspense, pedir que ele leia as partes da frase (duas ou três palavras) que sejam mais interessantes para ele. As partes da frase que o seu filho será convidado a ler poderão estar destacadas em cores diferentes, ou as palavras poderão estar acompanhadas de figuras, para que ele contextualize mais facilmente o sentido completo da frase.

    Fazer encenações sobre a leitura pode ser divertido e muito útil! Você ou outros adultos com os quais seu filho convive poderão passar a ler trechos de frases ou frases inteiras durante o dia, sem solicitar nada ao seu filho, apenas servindo como um modelo social para ele. Por exemplo, você pode comentar com um outro adulto: veja a frase que está escrita ali (e aí você lê a frase de forma empolgada), enquanto a outra pessoa concorda dizendo: ah, que legal que você leu isso para mim, essa frase é muito importante mesmo, ou essa frase acabou de me lembrar que (…). Vocês poderão criar alguns cartazes ou cartões com frases que fazem parte do cotidiano ou que sejam ligadas às ações e interesses do seu filho em casa.

    Use a sua criatividade e a sua expressividade na leitura, tornando a leitura um momento mais interessante para você e o seu filho. Vocês poderão usar as mãos, uma voz diferente, fantasias engraçadas ou qualquer outro objeto de apoio que ajude o seu filho a ter interesse em ler. Quando o seu filho demonstrar interesse em ler, vocês poderão fazer uma pausa para que ele tente ler, lembrando-se que essa tentativa deve ser comemorada (mesmo que ele não consiga ler a frase inteira).

    Crie atividades interativas para desenvolvimento da leitura. Vocês poderão fazer uma tempestade de ideias em casa e criar possíveis atividades lúdicas que envolvam a leitura. Essas atividades poderão ser realizadas em um ambiente otimizado para o aprendizado. Caso o seu filho já esteja lendo palavras isoladas, mas não consiga ainda ler combinações de palavras, crie atividades nas quais você nomeie algo interessante que você faz para o seu filho através de uma pequena sentença oral e escrita. Por exemplo, se o seu filho gosta que você o balance na rede, você pode criar uma atividade em que você o balança na rede enquanto canta sua música favorita e finge ser um tubarão/peixe ou personagem que se aproxima dele para fazer cócegas nele (caso ele goste de cócegas). Você faz esse conjunto de ações motivadoras e faz uma pausa de poucos segundos. Durante a pausa, você ordena em frente ao seu filho cartões com palavras avulsas formando a sentença “BALANÇAR NA REDE”. Você lê a sentença e volta imediatamente a balançá-lo. Depois de repetir esses ciclos algumas vezes, oferecendo a ação de balançá-lo e você mesmo montando e lendo a sentença, passe a pedir que seu filho tente montar a sentença com os cartões “BALANÇAR”, “NA” e “REDE”. Ajude quando necessário e comemore suas tentativas, lembrando de reforçar as tentativas de seu filho voltando a balançá-lo e investindo na diversão entre vocês dois.

    Posso utilizar o grande interesse do Rodrigo por números e letras dentro do quarto de brincar sem ser diretiva? Como fazer isto? Geralmente ele quer brincar com livros todo o tempo.

    É ótimo que você queira utilizar o interesse do Rodrigo por letras e números! E que queira introduzir os números e letras de forma não-diretiva ou responsiva. Eu acredito que adotar um estilo de interação responsivo trará para você uma ótima oportunidade para se criar e prolongar interações sociais com o Rodrigo.

    Para adotar um estilo de interação responsivo, procure iniciar uma interação com letras e números SOMENTE quando você perceber que Rodrigo está disponível para interagir. Você se lembra de quando apresentamos os estados de disponibilidade no curso? Uma criança pode estar em um desses quatro estados: em isolamento, interessada, altamente conectada ou interativa/rígida/controladora. Quando a criança apresenta-se interessada ou altamente conectada, ela está oferecendo sinais de disponibilidade flexível para interagir e você pode iniciar qualquer atividade que você acredite que pode ser motivadora para sua criança – inclusive letras e números.

    Lembrete:
    Os sinais de que o Rodrigo está no estado de isolamento incluem um envolvimento em uma atividade que exclui qualquer outra pessoa, contato visual mínimo ou ausente, resposta mínima ou ausente para os comentários e perguntas dos outros. Este é o momento para engajar-se em uma brincadeira paralela a dele, imitativa ou não, sem tentar distraí-lo ou pedir nada para ele.

    Os sinais de que Rodrigo está interessado incluem um aumento no contato visual e/ou contato físico como por exemplo pegar na mão da pessoa e levá-la até algum lugar, ou tocar na pessoa com o pé.

    Os sinais de que ele está altamente conectado incluem um contato visual maior ou até constante, expressões faciais animadas (sorriso), e respostas oferecidas aos pedidos e ações das outras pessoas.

    Os sinais de que ele está interativo e rígido/controlador incluem ele querer que você faça algo na atividade dele, mas apenas um papel muito específico estabelecido por ele, sem espaço para contribuições que você tente oferecer espontaneamente.

    Você mencionou que ele “geralmente quer brincar com livros o tempo todo”. Tenho algumas questões em relação a isso. Os livros possuem um foco específico em letras e números ou são simplesmente livros de histórias? Se forem livros que apresentam um foco em letras e números, você poderia tentar encontrar maneiras de se construir ou de se adicionar uma ação relacionada às letras e números do livro. Por exemplo, se o livro possuir uma página com o tema da letra “B”, talvez eu enfatize o “B” e ofereça a brincadeira de “bolhas” (de sabão). Se for um livro de números e houver um número “6” na página, eu poderia construir uma torre com 6 blocos e daí derrubá-la. Permita-se experimentar muitas maneiras de se construir uma interação a partir da atividade favorita dele. (Importante: caso os livros sejam a atividade favorita dele, talvez ele queira, algumas vezes, brincar com eles de forma mais isolada e rígida – se isso acontecer, seja responsivo e NÃO adicione algo ou construa uma interação dentro da atividade dele se ele não quiser. Neste caso, espere por momentos dentro desta atividade dele em que ele pareça estar mais flexível e mais aberto para você, e adicione algo à atividade apenas nestes momentos.

    Além dos livros, você pode oferecer quaisquer atividades divertidas (cócegas, carregar de cavalinho, pega-pega, canções, etc) enquanto enfatiza a parte de letras e números da brincadeira. Por exemplo, enquanto dou 5 passos gigantes para correr atrás dele, eu poderia prender a letra “C” ou a palavra “CÓCEGA” na minha camisa e daí oferecer cócegas para ele. Eu poderia usar letras de plástico para escrever a palavra “Cantar” e cantaria uma das canções favoritas dele. Depois embaralharia as letras e pediria para ele colocá-las na ordem correta para formar a palavra “Cantar” novamente, e cantaria mais uma vez para ele.

    Divirta-se com estas atividades e, é claro, adapte as sugestões para que funcionem ainda mais para o Rodrigo de acordo com os interesses e estágios de desenvolvimento das habilidades dele.

    Meu filho tem 16 anos e gosta de jogar sempre os mesmos jogos de tabuleiro, algumas vezes de forma bem rígida e olhando pouco para mim. O que posso fazer para ajudá-lo a se interessar por outros jogos e para tornar estas atividades mais interativas?

    Que bom que você está buscando formas de ajudar seu filho a interagir mais através das atividades que ele tem interesse! Celebre o que ele já está fazendo, que é jogar os jogos COM você, seguir as regras, deixar que você tenha a sua vez, etc.!

    Nos momentos em que ele estiver mais rígido, olhando menos para você, interagindo pouco dentro da atividade, permita que ele tenha o controle sobre a atividade e continue a jogar do jeito que ele quiser. E divirta-se com a atividade do jeitinho que ele gosta de fazer. Aprenda mais sobre o mundo de seu filho ao compartilhar com ele esta atividade. Quando você sentir que ele está de certa forma mais aberto para as suas participações, olhando mais, falando de forma mais espontânea, sorrindo, procure oferecer divertidas contribuições suas à atividade. Você pode começar com pequenas contribuições, por exemplo, fazer uma cara engraçada quando for a sua vez de jogar o dado e ele olhar para você, fazer uma animada festa qualquer que seja o resultado do seu dado, falar com a voz de algum personagem interessante, levantar da cadeira ou do chão para fazer a sua “dança da sorte” antes de jogar o dado, etc. Celebre as participações dele também. Quanto mais flexível e motivado pela sua participação ele estiver, ofereça mais contribuições suas. Desta forma, o foco de atenção estará mais e mais em você, e a atividade mais interativa e flexível. Se ele se tornar mais rígido durante o jogo, volte a jogar da maneira que ele quiser, dando mais controle para ele, sendo responsiva aos sinais que ele oferece.

    Uma outra forma de variar a atividade é sugerir animadamente logo de início outras regras ou regras adicionais ao jogo conhecido. Procure trazer ao jogo outras temáticas que já são do interesse do seu filho. Por exemplo, se você sabe que o seu filho gosta de aviões e vocês vão jogar Banco Imobiliário, você pode sugerir que algumas das pecinhas sejam aviões, ou que vocês adicionem a figura de um aeroporto em um dos cantos do tabuleiro, com valor para compra ou aluguel, etc.

    Inventar o seu próprio jogo de tabuleiro também pode ser uma maneira muito eficaz para se estimular a interação, a flexibilidade e o desenvolvimento de habilidades sociais. Pense nas temáticas que são interessantes para seu filho. Desenhe em uma cartolina o caminho do jogo, e em cada casa adicione tarefas para cada jogador que você sabe que são motivadoras para o seu filho e que podem incentivá-lo a desenvolver habilidades sociais como o contato visual, a conversação, a flexibilidade, o período de atenção compartilhada, ou outras habilidades que façam parte das metas educacionais do programa de desenvolvimento de seu filho. Alterne tarefas mais fáceis com tarefas mais difíceis, e dê ênfase à diversão. Exemplos de tarefas: imitar um gorila, andar fingindo que está com o pé doendo, inventar uma sentença utilizando uma determinada palavra, contar algo que aconteceu na última viagem, fazer uma pergunta pessoal para o outro jogador e ouvir a resposta (ex: “qual é a sua comida preferida?”), etc. Você pode plastificar a cartolina para poder utilizá-la novamente em outras sessões. E também criar novos jogos utilizando diferentes combinações dos interesses do seu filho.

    Como eu trabalho as habilidades de leitura e escrita no quarto de brincar/interagir?

    Muitos pais enviaram perguntas sobre a estimulação de leitura e escrita no quarto. Você pode trabalhar qualquer habilidade, inclusive de leitura e escrita, quando sua criança estiver motivada e envolvida em uma interação social no quarto. Por exemplo, se sua criança gostar de:

    Cócegas
    Leitura
    Passear de cavalinho
    Canções
    Vozes divertidas e atividades de imaginação
    Dinossauros

    Clique aqui para continuar lendo nossas dicas sobre como ajudar uma criança com autismo a ler e escrever.

    Quando nosso filho solicita ajuda ele balbucia “hummm” “hummm” “hummm” (aumentando o volume e a intensidade, ele vai apertando os botões). Buscamos atendê-lo, ou seja, damos o auxílio solicitado por ele. Como devemos agir nessas ocasiões, continuar a atender ou não atender mesmo que leve a um aumento de stress de todos em casa e dele mesmo?

    Parece que “hummm” “hummm” é uma comunicação para ele. É ótimo que ele esteja se comunicando com você!

    Primeiro, lide com “hummm” “hummm” como uma comunicação. Sinta-se e demonstre-se empolgado com isto! Responda ao som com uma celebração e uma ação – especialmente após ele ter ficado em isolamento por um tempo e estiver começando a interagir e se comunicar novamente.

    Como um segundo passo, finja não entender quando estiver respondendo. Se você achar que ele quer uma bebida, o celebre pelo som e rapidamente pegue um carrinho e dê para ele. Quando ele empurrar o carrinho demonstrando não o querer e disser “hummm” “hummm” de novo, pegue a bebida e fale (modele) claramente a palavra “BEBIDA”, faça uma pequena pausa e dê a bebida para ele. Ele perceberá que você quer ajudá-lo, que está sendo responsivo com ele e que um som ou palavra diferente vai ajudá-lo a conseguir a bebida mais rapidamente.

    Em seguida, quando ele estiver realmente muito motivado (poderia ser durante uma brincadeira/atividade favorita ou por sua bebida ou comida favorita) e você perceber que ele está relativamente mais flexível (ao contrário dos momentos em que ele está mais rígido e menos aberto às suas contribuições), após fingir não entendê-lo e oferecer o objeto incorreto, modele o nome do objeto ou ação que você acha que ele quer e faça uma pausa sem oferecer aquilo para ele. Dê a oportunidade para ele tentar fazer novos sons. O incentive a fazer os sons uma, duas, três, quatro, até cinco vezes. Ele verá que você ainda está tentando ajudá-lo, mas que leva mais tempo para conseguir algo quando ele não faz o som relacionado àquele objeto. De qualquer jeito, ele ainda consegue o objeto!

    Sempre que ele fizer um som diferente de “hummm” “hummm”, celebre (elogie, faça festa) e ofereça uma resposta (ação/objeto) imediata. Faça isso mesmo que o som diferente não apresente nenhum fonema da palavra que você está modelando e solicitando que ele fale. Por exemplo, você pede para ele dizer “bebida” e ele diz “mo”. O mais importante é que ele comece a fazer novos sons.

    Divirta-se com isso. Seja paciente, mantenha-se entusiasmado e acredite em seu filho. E, por último, não foque apenas na solicitação de comunicação verbal oral com seu filho. De vez em quando, deixe de lado as solicitações para ele falar, e concentre-se em solicitar que ele participe fisicamente, como por exemplo, “levante o seu pé para ganhar cócegas!”, “sente-se na cadeira e eu trago a bebida”, “dê o prato para mim e eu trago a comida”, etc. Estas solicitações permitirão que seu filho se sinta confiante para ter sucesso nas suas participações em interações, em um momento em que ainda é difícil para ele ter esse êxito na área da comunicação verbal.

    Quando nosso filho fica altamente conectado, é muito comum ele se comportar de maneira muito eufórica, mais especificamente, ele trinca os dentes, faz um som alto “hiiii” “hiiii”, dá tapas (não muito fortes) na sua própria cabeça, pernas e barriga além de dar chutes no chão. Qual deve ser nossa atitude neste momento já que buscamos mais momentos de alta conexão com ele? Os tapinhas e gemidos são rápidos e passageiros e logo ele volta a interagir. Existe algo que possa minimizar isso ou neste período curto é como se ele tivesse estas reações de autoestimulação em isolamento?

    Quando ele estiver altamente conectado e apresentar este comportamento, mantenha uma atitude calma e descontraída e permita que ele termine de agir daquela forma antes de continuar com a atividade (talvez de uma maneira mais calma). Algumas crianças apresentam dificuldades para autorregular sua energia e/ou suas emoções. Estes tipos de comportamentos descritos por você podem ajudar a criança na autorregulação quando elas se tornam hiperestimuladas. Em outros casos, a criança pode investir nestes comportamentos com o objetivo de aumentar sua energia e concentração. Quanto mais seu filho praticar interações, mais oportunidades ele terá para aprender a se regular durante atividades. Mais uma coisa para se observar: antes dele trincar os dentes, balbuciar “hiii” e se bater, o que você estava fazendo? Em alguns casos, se um dos pais ou a pessoa que cuida da criança tenta tirar a criança de alguma atividade dela ou insiste em ter a atenção da criança quando ela não quer mais prestar atenção, observamos a criança se envolver em comportamentos como os descritos acima. Se este for o caso de vocês, procure perceber mais rapidamente quando seu filho deixar de estar interessado ou altamente conectado e brinque em paralelo a ele sem fazer demandas, perguntas ou tentar chamar sua atenção. No decorrer do dia, você poderia oferecer estímulos para regular sua energia como massagens, abraços ou atividades físicas. Ofereça estas atividades para regulação de energia de forma motivadora para ele, dentro de atividades divertidas.

    Posso introduzir uma rotina na hora de tomar banho dentro da abordagem responsiva?

    Uma rotina na hora do banho pode ser muito útil para auxiliar tanto o seu filho como vocês. Se ele já está familiarizado e parece se beneficiar de calendários visuais, você pode continuar a utilizá-los durante a hora do banho e hora de dormir. Na abordagem responsiva, nós podemos introduzir uma rotina, mas não manipulamos a criança fisicamente de modo a forçá-la a seguir a rotina, pois em nossa experiência este tipo de atitude não estimula o tipo de interação social e flexibilidade que nós desejamos promover em nossas relações com uma criança/adulto com autismo. Ao invés de manipular e forçar, nós somos entusiasmados, persistentes e flexíveis enquanto encorajamos a hora do banho e de dormir. Apesar desta abordagem demandar a curto prazo um período de tempo maior para a atividade, notamos que a longo prazo nos ajuda a conseguir muito mais o que queremos.

    Como um exemplo, na hora do banho nós podemos encorajar o banho com entusiasmo ao mesmo tempo que damos um jeito de tornar outras atividades que competiriam com o banho indisponíveis naquele momento. Podemos desligar a TV ou o computador, fechar a porta para o quarto dos pais se ele gosta de pular na cama, parar uma brincadeira que vocês vinham brincando com ele, etc.

    Avise com entusiasmo que está quase na hora do banho. Depois de alguns minutos o avisando, o estimule a vir para o banheiro com você. Você pode começar a encher a banheira, preparar um banho de espuma ou adicionar os brinquedos ou objetos favoritos dele no box do chuveiro ou na banheira. Faça um pouco de barulho como se você estivesse se divertindo no banheiro. Tente tornar o banho o lugar mais interessante e divertido da casa nesse momento. Se ele vier para o banho sozinho, ou até se aproximar da banheira, faça festa e o celebre por isso. Se ele estiver brincando com o brinquedo favorito, eu posso trazer o brinquedo para o banheiro (se ele largar o brinquedo e o objeto estiver disponível para eu pegar – eu não vou tirar o brinquedo dele). Também posso trazer um lanchinho favorito para o banheiro como uma maneira de inicialmente estimulá-lo a vir para o banho sozinho.

    Dependendo do estágio de desenvolvimento social dele, você poderia também fazer “combinados”/”tratos” com ele em que ele poderia fazer algo que ele quer muito fazer (para o qual ele necessita da sua ajuda ou permissão para fazer) após o banho.

    Tenho uma dúvida que já está me deixando louca, o Renato não quer fazer cocô, ele está prendendo, fazendo contrações para não fazê-lo e isso está machucando o bumbum porque sai muito pouquinho e com isso causando assadura. Como devo agir, pois ele não está com intestino preso, o pouquinho que sai é normal não está ressecado, já dei laxante coloquei supositório e até agora nada. Se você puder me dizer como fazer eu agradeço.

    Celebre o que ele está fazendo! Elogie seu filho pelo pouquinho de cocô que ele faz. Mantenha-se descontraída, confortável, e calmamente o estimule a continuar quando ele parar. Não insista para que ele se sente no vaso novamente e termine de fazer cocô, pois parece que isto não está funcionando e pode transformar a atividade em uma batalha por controle. Uma das razões dele não querer fazer cocô pode ser a de que ele está tentando obter o controle da situação. Se este for o motivo, você terá melhores resultados se responder à situação de maneira calma e confortável, e encorajá-lo gentilmente sem insistir.

    Em algums casos, as crianças vivenciam sensações intensificadas que tornam o ato de fazer cocô difícil para elas. Se este for o caso com o seu filho, as pessoas ao redor o ajudarão mais quando estiverem calmas e compreensivas em relação a esta dificuldade apresentada por ele. Se o seu filho realmente tem experiências sensoriais intensificadas, você também pode ajudá-lo através da introdução de elementos de integração sensorial em seu programa.

    Há muitos livros ou sites na internet com informações oferecidas por profissionais especializados em integração sensorial. Por exemplo:
    *“The Fabric of Autism -Weaving the Threads into a Cogent Theory”, livro de Judith Bluestone – fundadora do Instituto HANDLE nos EUA, ela mesma encaixando-se dentro do espectro do autismo. A autora faz um relato de suas próprias dificuldades sensoriais na infância e adolescência, explicando também como o autismo seria uma desordem multi-sistêmica no organismo de uma pessoa, e oferecendo idéias de como tratar a desordem pensando no corpo integrado como um todo. O site da HANDLE oferece dicas de atividades de integração sensorial.
    *“The Out-of-Sync Child, Recognizing and Coping with Sensory Processing Disorder” e ”The Out-of-Sync Child has Fun – Activities for Kids with Sensory Integration Dysfunction”, ambos livros de Carol Stock Kranowitz, oferecem explicações sobre dificuldades de integração sensorial e diversas atividades divertidas com o objetivo de promover a integração sensorial.

    Como começar a procurar e treinar voluntários?

    O recrutamento e treinamento de voluntários serão áreas trabalhadas em maior profundidade durante nosso curso “Autismo, Interação Prazerosa e Aprendizagem – Módulo 2”. Por enquanto, adiantamos que uma das maneiras mais eficazes de se recrutar costuma ser a distribuição de cartazes e folders em universidades, principalmente nas faculdades de psicologia e educação, mas também faculdades de artes cênicas e interpretação, artes plásticas, comunicação social, enfermagem, terapia ocupacional, fonoaudiologia, bibliotecas, APAEs, AMAs, escolas especiais e centros de habilitação para pessoas com necessidades especiais. Algumas famílias optam por colocar os cartazes em clubes e igrejas também. Além dos cartazes, muitas famílias fazem palestras informativas nos lugares acima citados.

    No Brasil, é cada vez mais frequente o recrutamento de voluntários através de grupos de discussão especializada na internet, como os grupos de discussão sobre temas ligados a pessoas com autismo.

    A bela oportunidade de se estar com a sua criança, somada à empolgação que vocês tiverem pelo programa que estão desenvolvendo para sua criança, são fatores que podem motivar muito as pessoas para que queiram participar do programa. É importante que as pessoas se comprometam como se comprometeriam a um trabalho remunerado, pois a responsabilidade é a mesma. Não será um favor para vocês ou seu filho, e sim uma fantástica oportunidade de vida para todos!

    Você pode avisar que todo o treinamento será oferecido por você gratuitamente para os voluntários, e que você oferecerá sessões freqüentes de feedback para eles. Passe a mensagem da beleza do programa, de como é divertido, prazeroso, eficaz e muito humano.

    É importante não sobrecarregar os voluntários com muitas informações e solicitações no início, mas estimulá-los a estar com seu filho de forma amorosa, respeitosa e divertida, para brincar com ele e formar um vínculo. Recomendamos sessões curtas no início e, conforme o nível de conforto e de habilidades do voluntário gradualmente aumenta, vá aumentando aos poucos a duração das sessões.

    Você pode pedir que eles leiam as informações do site Inspirados pelo Autismo. Você pode mostrar vídeos da metodologia e pedir que leiam livros que considere relevantes. Utilize o material do Curso de Módulo 1 da Inspirados pelo Autismo como material de apoio para treinar os voluntários.

    É muito importante treinar seus voluntários com certa regularidade. Certifique-se de que você e seus voluntários agendem um horário semanal para que você possa dar feedback a cada um deles. Normalmente, o melhor momento para se dar o feedback é aquele imediatamente após você ter observado o voluntário em ação, no quarto de brincar/interagir.

    Quando já tiver seu pequeno grupo de voluntários, ou mesmo se o grupo for formado por apenas duas pessoas, agende regularmente reuniões semanais ou quinzenais. É extremamente importante manter essas reuniões de grupo. Elas dão uma direção sólida ao seu programa e permitem que vocês elaborem e ajustem as metas educacionais à medida que mudanças na criança ocorram.

    Para um suporte contínuo e acompanhamento do treinamento de seus voluntários, sugerimos que você envie, com a frequência que desejar, um vídeo de uma sessão de um de vocês com a sua criança para que vocês possam receber feedback de um de nossos consultores. (Ver nossa página de “Consultas telefônicas ou pela internet”.)

    No curso “Autismo, Interação Prazerosa e Aprendizagem – Módulo 2“, nós temos um tópico relativo a como treinar e dar feedback para os voluntários após as sessões responsivas com sua criança.

    Há um número máximo de pessoas para integrar a equipe de voluntários no atendimento ao nosso filho?

    Além da equipe multidisciplinar de profissionais que atendem a criança, nós sugerimos um número de 4 a 8 voluntários no programa domiciliar. Algumas famílias encontram bons resultados com um número de voluntários acima do sugerido, mas muitas vezes pode chegar a ser confuso para a criança e difícil para os pais a tarefa de coordenação e treinamento de tantas pessoas.

    O que acontece freqüentemente nestes casos com tantas pessoas é que cada uma participa de sessões apenas 1 vez por semana, por 1 ou 2 horas. Com esta freqüência, as pessoas levam um período de tempo maior para construir um relacionamento com a criança. É por isso que recomendamos que cada voluntário participe de sessões pelo menos 2 vezes por semana ou 1 vez por semana em sessões mais longas (3 horas, mesmo que haja um intervalo para descanso).

    Um outro motivo pelo qual recomendamos que os voluntários dediquem um mínimo de 4 a 6 horas por semana é que vocês pais investirão tempo e energia no treinamento de cada voluntário, e compensa mais investir naqueles que podem se dedicar mais ao programa. Aqueles que vierem de 2 a 3 vezes por semana, provavelmente se envolverão mais no programa, participarão de reuniões, criarão um vínculo com a sua criança mais rapidamente. E você terá o mesmo tanto de trabalho para treinar uma pessoa que virá apenas 1 hora por semana, dar feedback para ela, contar como foi a reunião do grupo, etc.

    Por isso, recomendamos de 4 a 8 voluntários que dediquem ao programa pelo menos 4 horas semanais. Isso geralmente significa que a família tem menos voluntários, mas que trabalham um mesmo número de horas no quarto de brincar/interagir que um grande grupo trabalharia, e estes voluntários tendem a ter um treinamento melhor, um grau de comprometimento maior, e um envolvimento mais profundo com a criança.

    Quando crianças e adultos com autismo batem em si mesmos ou nos outros, pode ser que eles estejam sentindo alguma dor ou desconforto e estejam tentando se livrar da dor através deste ato de se bater ou bater nos outros?

    É possível. Em geral, há 3 razões para uma criança ou adulto com autismo se bater ou bater nos outros. A primeira razão é o que chamamos de “tentativa de provocar reações”. Isto significa que a pessoa está batendo para ganhar alguma reação de alguma pessoa em seu ambiente. É uma maneira de se adquirir mais controle de seu ambiente, provocando uma reação que já é conhecida e esperada. Se uma criança ou adulto que deseja ter uma sensação maior de controle em sua vida sabe que, ao bater nela mesma em outra pessoa, ela conseguirá que a mãe, pai ou qualquer outra pessoa ofereça a ela uma intensa reação, mesmo que seja uma reação de desaprovação, ela continuará investindo nesta estratégia para ganhar a atenção e forte reação. Lembre-se que esta pessoa está fazendo o melhor que pode com as habilidades que possui! A melhor maneira de se responder a este comportamento é manter-se calmo e restringir suas ações ao mínimo. Portanto, se você precisa proteger uma outra criança ou a si mesmo das agressões físicas da pessoa com autismo, procure fazer isto da forma mais calma possível, com uma reação mínima, ao invés de uma atitude dramática carregada de um tom emotivo intenso e negativo. Desta forma, sua resposta será menos atraente e interessante para uma pessoa que está tentando conseguir uma reação sua. Você pode então oferecer grandes reações para celebrar aqueles comportamentos mais gentis e cuidadosos da pessoa com autismo.

    Uma outra razão para a pessoa se bater ou bater nos outros pode ser a tentativa de autorregulação sensorial ou de energia física. Se uma pessoa com autismo apresenta repentinas “explosões” de energia ou de sensações em seu corpo, ela pode achar que irá conseguir regular/ajustar seu corpo se bater em si mesmo ou em outra pessoa. Se este for o caso com a criança ou adulto, mantenha-se calmo e contenha o comportamento da pessoa para que ela não se machuque nem machuque outra pessoa. Com a permissão da pessoa com autismo, ofereça massagens variadas e diferentes estímulos tácteis. Por exemplo, se ela estiver batendo em sua própria cabeça, ofereça um toque com pressão em sua cabeça, etc. Recomendamos que os familiares procurem se informar sobre dietas especiais, exames e protocolos específicos para auxiliar pessoas com autismo na área biológica. Ainda para prevenir a ocorrência do comportamento, observe a pessoa para tentar descobrir a causa do comportamento e então ajuste o estímulo que vinha sendo oferecido. Por exemplo, se você perceber que a criança fica feliz, porém bastante agitada quando roda em seu colo, certifique-se de criar pausas e novas etapas em sua atividade física interativa. Uma nova etapa entre os ciclos de rodar poderia ser um momento em que você ofereceria à criança abraços de forte pressão – que podem ser estímulos calmantes para auxiliar a autorregulação.

    Uma terceira razão pela qual a pessoa pode bater em si ou nos outros pode ser a tentativa de comunicação. Talvez a pessoa esteja tentando comunicar algo como: “saia de perto de mim”, “ me dê o objeto agora”, ou simplesmente “não!”. Se você acha que sabe o que a pessoa quer, por exemplo dizer “não” para uma atividade, ofereça para a pessoa uma forma de comunicação alternativa ao bater. Por exemplo, você diria: “você pode dizer ‘não’ se você não quer que eu cante.” É importante perceber se, antes de partir para a ação de bater, a pessoa vinha tentando comunicar a você ou a outra pessoa que ela NÃO queria algo mas só foi atendida quando começou a bater? Se este for o caso, a pessoa está aprendendo que o ato de bater é uma poderosa e útil forma de se comunicar. Para evitar que a pessoa utilize este tipo de estratégia de comunicação, responda às comunicações que são precursoras ao ato de bater para que a pessoa não precise intensificar a comunicação e chegar a bater para ser entendida.

    Algumas vezes, as três razões para bater em si mesmo ou nos outros misturam-se ou alternam-se em um mesmo evento. Por isso, talvez você precise modificar a sua resposta de acordo com a criança ou adulto em questão e o momento específico de cada evento.

    Como posso estar com o meu filho quando ele está em isolamento, parado e olhando para o nada?

    Quando uma criança está em isolamento, ela sempre está fazendo alguma coisa. No caso do seu filho, parece que ele está absorvido em alguma experiência sensorial. Quando ele está olhando para o “nada”, ele pode estar olhando para algo. Ou talvez esteja atentamente ouvindo algum som. Talvez esteja absorvido pela sensação de suas roupas em contato com seu corpo ou o movimento do ar em sua pele. Ele pode também estar concentrado em alguma fragrância no ar. Quando as crianças e adultos no espectro do autismo são capazes de contar verbalmente como são suas experiências, eles muitas vezes relatam um universo com experiências sensoriais muito mais intensas do que a maioria das pessoas de desenvolvimento típico.

    Nós queremos ajudá-los a interagir muito mais conosco em “nosso mundo”. Muitas vezes, o melhor jeito de facilitar uma maior interatividade é permitir que a pessoa continue e “complete” sua atividade de isolamento e que ela mesma inicie a interação conosco (olhando em nossos olhos, aproximando-se de nós através de um contato físico, ou comunicando-se conosco de forma verbal ou não verbal). Quando uma pessoa com autismo termina espontaneamente sua atividade de isolamento e inicia uma interação, notamos que há uma probabilidade maior dela permanecer em uma interação conosco por períodos mais longos.

    Acompanhe seu filho em paralelo, fazendo o que ele está fazendo. Tente descobrir mais sobre o que está absorvendo a atenção dele. Tente aprender mais sobre o mundo em que ele vive. Tente apreciar tudo de seu filho – até a parte dele que está em isolamento. Saiba que se você conseguir se sentir bem ao ficar parada olhando para o nada (ou para algo) junto com ele, ele perceberá e vocês poderão construir uma conexão até mais profunda do que vocês já têm. Duas pessoas que gostam do mesmo programa de TV constroem uma conexão através da atividade e interesse compartilhado. Imagine que ele está assistindo a algum tipo de “programa de TV” e nós é que não conseguimos ver o que está passando na tela…

    Devemos tentar reduzir a frequência dos comportamentos de repetição e isolamento até que não mais ocorram?

    Ao invés de procurar impedir a ocorrência dos comportamentos de isolamento e repetição (não estamos nos referindo aqui aos comportamentos indesejados mencionados no curso), nós nos concentramos em promover o aumento da interatividade e envolvimento social. Quando as habilidades sociais aumentam, os comportamentos de isolamento e repetição de uma pessoa com autismo tendem a naturalmente diminuir em sua frequência. A pessoa passa a ter menos necessidade de investir nestes comportamentos. Algumas pessoas chegam a não apresentar mais nenhum destes comportamentos. Outras pessoas continuam a se engajar em algumas atividades repetitivas e de isolamento mesmo apresentando níveis cada vez mais altos de interatividade social.

    Quando começar a utilizar menos o quarto de brincar/interagir e passar a utilizar outros ambientes para as atividades da criança ou adulto com autismo?

    Em linhas gerais, para começarmos a fazer a transição gradual para outros ambientes, recomendamos que as seguintes considerações sejam feitas ao se analisar como a pessoa com autismo poderá se beneficiar de cada novo ambiente:

    Qual é o nível de distração (desatenção) que a pessoa apresenta em ambientes externos?
    O quanto você precisa ser mais controlador e menos responsivo em ambientes externos com o objetivo de proteger a pessoa com autismo, outras pessoas, objetos, etc?
    O quanto a pessoa com autismo torna-se mais controladora e inflexível em ambientes externos?
    Qual é o nível de interatividade da pessoa em ambientes externos se comparado com o nível de interatividade em ambientes internos da casa?

    A maioria das crianças e adultos com autismo demonstram que estão aptos para permanecer mais tempo em ambientes externos quando apresentam um alto grau de interatividade e de comunicação dentro do quarto de brincar/interagir e na casa. Neste momento, ambientes externos tornam-se cada vez mais úteis para o desenvolvimento da pessoa com autismo.